sábado, 23 de abril de 2016

De mãos dadas com a escrita.

A possibilidade de escrita intelectual hoje eu entendo, principalmente para as mulheres, como um universo onde muitas vezes não acolhe a nossa presença. Refiro-me em específico a escrita insurgente, traçada nos poucos espaços vazios, quando a casa inteira já dorme, quando o senso de comunidade doméstica já não é a principal preocupação, especialmente para as mulheres que optam por não ter os serviços de empregadas domésticas e têm que lidar com a rotina de uma casa, filhos e profissão. 
No texto intitulado Intelectuais Negras da feminista e professora estadunidense bel hooks, percebe-se como os trabalhos intelectuais raramente são reconhecidos como ativismos e em meio a profundas reflexões e entrelaçamentos sobre a condição de ser intelectual, quase sempre remeter-se automaticamente a uma intelectualidade de modelo burguesa e predominantemente masculina. Hooks percebe a anti-intelectualidade da comunidade negra e, sobretudo de mulheres, como consequências também do patriarcado, aliada a insistência cultural em que negras sejam sempre moldadas, com ~muita~ disposição para servir. 
Pontuo essas reflexões pois creio que elas ajustam-se bastante com os medos, inquietações e provocações que vivencio cotidianamente em sala de aula, na produção acadêmica e nos espaços sociais corriqueiros, onde a presença intelectual de uma mulher negra parece sempre ser vista com desconfiança, e que num universo maternal onde o que realmente parece importar é a quantidade de atenção e zelo que você está dando a educação/escolarização dos filhos, sobra pouco tempo e coragem para cotidianamente se afirmar enquanto intelectual. 
Friso que não se trata justamente do ser intelectual como nossas cabeças estão acostumadas a pensar, mas ser intelectual com uma mente descolonizada, digo não ser somente bem sucedida academicamente, mas para além disso, honrar o real motivo que me fez chegar até a possibilidade de no trabalho intelectual libertar-me das condições limitadas materialmente. E pensar que com um pouco mais de maturidade, comecei a dispor da leitura e do que ela me suscitava, para compor uma problematização do mundo.
 Friso que essas inspirações de bel hooks e Conceição Evaristo, de ter na escrita intelectual, uma “escrevivência”, favorece  um sentido de comunidade, para além dos espaços que historicamente nos são reservados... Essa escrevivência terá como propósito de exercício, o meu direito de mulher negra e intelectual/ativista, em diferentes espaços, sem formatos, rigores... e nesse fazer mapear e me conectar com muitas outras.



Imagem: https://craspsicologia.wordpress.com/2015/05/27/apresentacao-de-livroresenha-ensinando-a-transgredir/






bel hooks














Conceição Evaristo

Nenhum comentário:

Postar um comentário