A
possibilidade de escrita intelectual hoje eu entendo, principalmente para as mulheres, como um universo onde muitas vezes não acolhe a nossa
presença. Refiro-me em específico a escrita insurgente, traçada nos poucos
espaços vazios, quando a casa inteira já dorme, quando o senso de comunidade
doméstica já não é a principal preocupação, especialmente para as mulheres que
optam por não ter os serviços de empregadas domésticas e têm que lidar com a
rotina de uma casa, filhos e profissão.
No texto intitulado Intelectuais Negras da feminista e professora
estadunidense bel hooks, percebe-se como os trabalhos intelectuais raramente são reconhecidos como
ativismos e em meio a profundas reflexões e entrelaçamentos sobre a
condição de ser intelectual, quase sempre remeter-se automaticamente a uma
intelectualidade de modelo burguesa e predominantemente masculina. Hooks percebe
a anti-intelectualidade da comunidade
negra e, sobretudo de mulheres, como consequências também do patriarcado,
aliada a insistência cultural em que negras sejam sempre moldadas, com ~muita~
disposição para servir.
Pontuo essas reflexões pois creio que elas ajustam-se
bastante com os medos, inquietações e provocações que vivencio cotidianamente
em sala de aula, na produção acadêmica e nos espaços sociais corriqueiros, onde
a presença intelectual de uma mulher negra parece sempre ser vista com desconfiança,
e que num universo maternal onde o que realmente parece importar é a quantidade
de atenção e zelo que você está dando a educação/escolarização dos filhos,
sobra pouco tempo e coragem para cotidianamente se afirmar enquanto
intelectual.
Friso que não se trata justamente do ser intelectual como nossas
cabeças estão acostumadas a pensar, mas ser intelectual com uma mente
descolonizada, digo não ser somente bem sucedida academicamente, mas para além
disso, honrar o real motivo que me fez chegar até a possibilidade de no trabalho intelectual libertar-me das condições
limitadas materialmente. E pensar que com um pouco mais de maturidade, comecei a dispor da leitura e
do que ela me suscitava, para compor uma problematização do mundo.
Friso que essas inspirações de bel hooks e Conceição
Evaristo, de ter na escrita intelectual, uma “escrevivência”, favorece um sentido de comunidade, para além dos espaços que historicamente nos são reservados... Essa escrevivência terá como propósito de exercício, o meu direito de mulher
negra e intelectual/ativista, em diferentes espaços, sem formatos, rigores... e nesse fazer
mapear e me conectar com muitas outras.
Imagem: https://craspsicologia.wordpress.com/2015/05/27/apresentacao-de-livroresenha-ensinando-a-transgredir/
bel hooks
bel hooks
Conceição Evaristo



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