As representações raciais
cotidianas que vivenciamos, falo sobre a minha família, numa cidade de pequeno
porte no interior do Rio Grande do Norte, tem me feito pensar historicamente no
que Aníbal Quijano chama de
classificação social a partir da ideia de raça, uma construção que expressa às
experiências de dominação colonial. Para ele, raça e identidade racial passou a
moldar os instrumentos de classificação básica da população, sobretudo o mundo
do trabalho capitalista. Bom, e o que isso pode nos dizer na prática,
percebendo que para essas representações que nos são impostas por curiosidade e
muitas vezes de forma antecipada, a maioria delas nos retira sumariamente
daquilo que somos e não “aparentamos” ser: professores universitários
concursados em IFES.
Mesmo que a cidade abrigue duas instituições federais e
uma estadual, dentre algumas particulares e diversos empregos públicos, para o
coro social parece mais interessante nos imputar ocupações onde a força física
seja predominante à experiência com o trabalho intelectual. No que me permito escreviver nesse espaço, devo dizer que essa percepção me levou a
diversas conexões que estão sendo estabelecidas com a escola, a infância do meu
filho e as possibilidades de se auto representar que ele deve (deveria) ter...
O
artigo intitulado Escolarizando homens
negros de bel hooks, onde dentre tantas reflexões preciosas, a constatação
de que lutar para educar, despertar a curiosidade e a genialidade, questionar,
ler, pensar, para meninos e homens negros, pode ser encarada como ameaça e
muita desconfiança.
O que o processo de escolarização faz para tornar
invisíveis nossos meninos e meninas negras? não somente por uma tradição
cultural alicerçada na branquitude, mas porque esses jovens inteligentes são invisibilisados? Ainda pensando em Hooks, o que muitos desses jovens irão
ter que provar ao longo da vida de forma racializada, para seus coleguinhas
brancos, em determinadas escolas e universidades, o quanto são “pretos de verdade”? Legítimos menestréis do gueto...
Uma educação que pense na profundidade desses aspectos não pode levar em consideração apenas a
mudança de representação em termos de conteúdos em sala de aula, ela precisar ser transgressora! vide as muitas
dificuldades de implementação da lei 10.639/03 nos espaços escolares até
hoje... algumas traduzidas em tentativas de atualização superficial.
A
escolarização de meninos e meninas negras deve permitir a reescrita de suas histórias pelas suas
próprias mãos, do direito de contá-las na primeira pessoa,
vinculando aprendizagem à libertação e ao reconhecimento e respeito dessas subjetividades na produção do conhecimento.



