sábado, 23 de abril de 2016

Educar para transgredir.



As representações raciais cotidianas que vivenciamos, falo sobre a minha família, numa cidade de pequeno porte no interior do Rio Grande do Norte, tem me feito pensar historicamente no que Aníbal Quijano chama de classificação social a partir da ideia de raça, uma construção que expressa às experiências de dominação colonial. Para ele, raça e identidade racial passou a moldar os instrumentos de classificação básica da população, sobretudo o mundo do trabalho capitalista. Bom, e o que isso pode nos dizer na prática, percebendo que para essas representações que nos são impostas por curiosidade e muitas vezes de forma antecipada, a maioria delas nos retira sumariamente daquilo que somos e não “aparentamos” ser: professores universitários concursados em IFES. 

Mesmo que a cidade abrigue duas instituições federais e uma estadual, dentre algumas particulares e diversos empregos públicos, para o coro social parece mais interessante nos imputar ocupações onde a força física seja predominante à experiência com o trabalho intelectual.  No que me permito escreviver nesse espaço, devo dizer que essa percepção me levou a diversas conexões que estão sendo estabelecidas com a escola, a infância do meu filho e as possibilidades de se auto representar que ele deve (deveria) ter... 

O artigo intitulado Escolarizando homens negros de bel hooks, onde dentre tantas reflexões preciosas, a constatação de que lutar para educar, despertar a curiosidade e a genialidade, questionar, ler, pensar, para meninos e homens negros, pode ser encarada como ameaça e muita desconfiança. 

O que o processo de escolarização faz para tornar invisíveis nossos meninos e meninas negras? não somente por uma tradição cultural alicerçada na branquitude, mas porque esses jovens inteligentes são invisibilisados? Ainda pensando em Hooks, o que muitos desses jovens irão ter que provar ao longo da vida de forma racializada, para seus coleguinhas brancos, em determinadas escolas e universidades, o quanto são “pretos de verdade”? Legítimos menestréis do gueto... 

Uma educação que pense na profundidade desses aspectos não pode levar em consideração apenas a mudança de representação em termos de conteúdos em sala de aula, ela precisar ser transgressora! vide as muitas dificuldades de implementação da lei 10.639/03 nos espaços escolares até hoje... algumas traduzidas em tentativas de atualização superficial. 

A escolarização de meninos e meninas negras deve permitir a reescrita de suas histórias pelas suas próprias mãos, do direito de contá-las na primeira pessoa, vinculando aprendizagem à libertação e ao reconhecimento e respeito dessas subjetividades na produção do conhecimento. 



De mãos dadas com a escrita.

A possibilidade de escrita intelectual hoje eu entendo, principalmente para as mulheres, como um universo onde muitas vezes não acolhe a nossa presença. Refiro-me em específico a escrita insurgente, traçada nos poucos espaços vazios, quando a casa inteira já dorme, quando o senso de comunidade doméstica já não é a principal preocupação, especialmente para as mulheres que optam por não ter os serviços de empregadas domésticas e têm que lidar com a rotina de uma casa, filhos e profissão. 
No texto intitulado Intelectuais Negras da feminista e professora estadunidense bel hooks, percebe-se como os trabalhos intelectuais raramente são reconhecidos como ativismos e em meio a profundas reflexões e entrelaçamentos sobre a condição de ser intelectual, quase sempre remeter-se automaticamente a uma intelectualidade de modelo burguesa e predominantemente masculina. Hooks percebe a anti-intelectualidade da comunidade negra e, sobretudo de mulheres, como consequências também do patriarcado, aliada a insistência cultural em que negras sejam sempre moldadas, com ~muita~ disposição para servir. 
Pontuo essas reflexões pois creio que elas ajustam-se bastante com os medos, inquietações e provocações que vivencio cotidianamente em sala de aula, na produção acadêmica e nos espaços sociais corriqueiros, onde a presença intelectual de uma mulher negra parece sempre ser vista com desconfiança, e que num universo maternal onde o que realmente parece importar é a quantidade de atenção e zelo que você está dando a educação/escolarização dos filhos, sobra pouco tempo e coragem para cotidianamente se afirmar enquanto intelectual. 
Friso que não se trata justamente do ser intelectual como nossas cabeças estão acostumadas a pensar, mas ser intelectual com uma mente descolonizada, digo não ser somente bem sucedida academicamente, mas para além disso, honrar o real motivo que me fez chegar até a possibilidade de no trabalho intelectual libertar-me das condições limitadas materialmente. E pensar que com um pouco mais de maturidade, comecei a dispor da leitura e do que ela me suscitava, para compor uma problematização do mundo.
 Friso que essas inspirações de bel hooks e Conceição Evaristo, de ter na escrita intelectual, uma “escrevivência”, favorece  um sentido de comunidade, para além dos espaços que historicamente nos são reservados... Essa escrevivência terá como propósito de exercício, o meu direito de mulher negra e intelectual/ativista, em diferentes espaços, sem formatos, rigores... e nesse fazer mapear e me conectar com muitas outras.



Imagem: https://craspsicologia.wordpress.com/2015/05/27/apresentacao-de-livroresenha-ensinando-a-transgredir/






bel hooks














Conceição Evaristo

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Por que?

A proposta do blog é discutir e relacionar a experiência intelectual e docente com os demais assuntos que percorrem as minhas (nossas) vivências enquanto mulheres: escola, feminismos, racismo, maternidade, universidade, leitura, escrita, ativismos...projetando a “escrevivência” enquanto uma forma de conexão e partilha.